De um problema familiar à solução para as filas do SUS

Tudo começou com uma dor em família. Literalmente.

Daniel Shiraishi, executivo do setor financeiro, viu seu irmão, médico atuante, lutando contra um emaranhado de tarefas burocráticas para realizar o que deveria ser simples: operar. Cirurgias que não saíam do papel, agendamentos sem controle, pagamentos indefinidos, um rastro de planilhas e pouca ou nenhuma previsibilidade. Para alguém que estudou medicina para salvar vidas, aquilo parecia tudo, menos cuidar de pacientes.

Foi ali que Daniel decidiu fazer o que qualquer irmão faria, só que com um toque empreendedor. Ele não só se propôs a ajudar, como também resolveu estruturar uma plataforma para resolver a dificuldade do irmão. Não com improvisos ou truques, mas com tecnologia, dados e eficiência. Reuniu-se ao amigo e especialista em tecnologia, Sergio Campangna, e juntos fundaram a Fin-X, uma startup focada inicialmente na saúde suplementar, com o objetivo de organizar e dar previsibilidade à jornada cirúrgica e os respectivos honorários dos médicos — do pedido da cirurgia, autorização junto às operadoras, à realização do procedimento e por fim, o pagamento dos honorários médicos.

A princípio, o projeto mirava hospitais e operadoras privadas. Mas foi justamente nesse momento que surgiu um encontro inesperado com o que há de mais antigo, e essencial, na saúde brasileira: as Santas Casas de Misericórdia. Fundadas ainda no período colonial e herdeiras de tradições assistenciais baseadas na compaixão cristã, essas instituições formam hoje a espinha dorsal do Sistema Único de Saúde (SUS). Representam mais de 50% dos leitos hospitalares em muitos estados e respondem por cerca de 60% das internações de média e alta complexidade no Brasil e pouco mais de 50% do total. Foram elas as primeiras a estender a mão à Fin-X e a mostrar que a solução digital criada para o setor privado tinha, na verdade, um poder transformador no setor público.

Essa transição não foi apenas técnica. Foi cultural. Exigiu da Fin-X e de seus criadores uma postura rara no ecossistema de startups: humildade para escutar, adaptar e aprender. As Santas Casas e Hospitais Filantrópicos (que também atendem o SUS em operação similar às Santas Casas representam um total de mais de 1.800 hospitais no Brasil) não são startups, são instituições centenárias, enraizadas em territórios desiguais, muitas vezes operando no limite da sustentabilidade. Levar tecnologia a esses ambientes exigia não só código e UX, mas sensibilidade e respeito. E foi assim, dialogando com quem está na linha de frente do SUS, que a Fin-X se transformou em uma plataforma de impacto sistêmico. Hoje, ela opera em 23 estados brasileiros, com mais de 150 hospitais ativos e outros 100 em processo de implementação, gerenciando mais de um milhão de cirurgias por ano e reduzindo tempos de espera em até 40%.

Um fator muito importante nestas operações é a relevâncias da receita oriunda da Saúde Suplementar para as Santas Casas e Filantrópicos. As atividades privadas permitidas por contrato geram uma possibilidade de equilíbrio financeiro importante para estas instituições e a Fin-X está desta forma totalmente preparada para atender todas as cirurgias realizadas – Saúde Suplementar, SUS e Particulares (pagamento direto feito pelos pacientes).

Essa trajetória, que mistura um problema pessoal, um salto de empatia e um mergulho na saúde pública brasileira, não passou despercebida. Em um mercado onde muitas promessas morrem antes do pitch final, a Fin-X passou pelo escrutínio minucioso de três grandes fundos de investimento, e sobreviveu.

Mais do que isso, convenceu.

A DOMO Invest foi a primeira a apostar. Em 2021, injetou R$ 500 mil na operação. Valor modesto, mas suficiente para validar que havia ali mais do que uma boa intenção: havia execução, inteligência e seriedade. Na sequência, veio o Headline XP, fundo que entende como poucos o que é infraestrutura crítica. Em 2023, investiram R$ 7,8 milhões para acelerar a expansão geográfica, reforçar o time e desenvolver novos produtos. Finalmente, em 2024, chegou o fundo Atlantico, trazendo não apenas recursos, mas uma nova tese: transformar a Fin-X em uma plataforma de backbone da saúde, com inteligência artificial, automação e personalização únicas para conectar e integrar os Prestadores e Pagadores da Saúde, agora com visão e sonho grande atuando no público e no privado. O movimento agora é de escala e de impacto.

Quem conhece de perto o universo de startups sabe o que significa conquistar esse tipo de confiança. Antes de um fundo assinar um cheque, ele quer saber tudo: do fluxo de caixa à estrutura jurídica, das métricas de retenção aos processos de compliance, da robustez da tecnologia à cultura da empresa. E a Fin-X passou por tudo isso com transparência, rigor, excelência e propósito.

Porque no fim das contas, é esse mesmo propósito que ainda sustenta tudo. O que começou como uma tentativa de ajudar um irmão, virou um sistema que hoje melhora a vida de milhares de brasileiros que esperam por uma cirurgia. E o mais bonito é perceber que, por trás de tanta tecnologia, dados e investimento, a essência ainda é humana. É o cuidado. É a obstinação dos fundadores. É a coragem de entrar em ambientes complexos como o SUS, com disposição para aprender. É a disciplina silenciosa de quem constrói confiabilidade. É a pertinácia de quem acredita que dá para mudar o sistema de dentro para fora.

A Fin-X é um lembrete de que as grandes transformações muitas vezes começam com pequenos gestos. Com um irmão dizendo: “deixa que eu te ajudo”. E com outro respondendo: “isso pode mudar a vida de muita gente”.

Daniela Nogueira Beverinotti
CMO na Fin-X

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