As Santas Casas e os hospitais filantrópicos são protagonistas silenciosos da história da saúde pública brasileira. Surgiram antes mesmo da existência do Estado brasileiro como ente organizado, ainda no período colonial, quando a assistência à saúde era tarefa de ordens religiosas e organizações da sociedade civil. A primeira Santa Casa do Brasil foi fundada em 1543, na cidade de Santos, Estado de São Paulo, com o objetivo de acolher os pobres, doentes e desvalidos, em um tempo em que o atendimento médico era privilégio exclusivo das elites.
Inspiradas na tradição portuguesa e católica de caridade, essas instituições foram se espalhando pelo país e consolidaram-se como centros fundamentais de atendimento médico-hospitalar. Nos tempos de império, república velha e até meados do século XX, exerceram o papel de únicas opções de acesso à saúde para a população de baixa renda. Com o passar do tempo, muitas dessas unidades se modernizaram, diversificaram seus serviços e os profissionalizaram, smpre sem perder o caráter beneficente e comunitário.
A criação do Sistema Único de Saúde, o SUS, em 1988, marcou um novo capítulo para essas entidades. A Constituição Federal permitiu sua participação complementar ao sistema público e grande parte das Santas Casas passou a ser contratada pelo Estado para realizar atendimentos via SUS. Atualmente, mais de 1.700 hospitais filantrópicos estão espalhados pelo Brasil, dando conta de cerca de 60% dos atendimentos de média e alta complexidades do SUS, segundo dados da Confederação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos (CMB).
Apesar desta importância, os hospitais filantrópicos enfrentam dificuldades históricas e estruturais. A principal delas é o subfinanciamento crônico. Os valores pagos pelo SUS muitas vezes não cobrem os custos reais dos procedimentos, o que leva a déficits operacionais contínuos. Relatórios recentes da CMB apontam que mais de 70% das Santas Casas operam no vermelho. Muitas acumulam dívidas com fornecedores, folha de pagamento e tributos, o que compromete a qualidade do serviço e, em alguns casos chega a ameaçar sua existência.
Outro desafio crítico é a falta de infraestrutura e a obsolescência tecnológica. Enquanto alguns hospitais filantrópicos conseguiram modernizar-se, como a Santa Casa de Porto Alegre ou a de Belo Horizonte, que atuam também como centros de ensino e pesquisa, a amioria dos demais operam com equipamentos ultrapassados e equipes subdimensionadas, especialmente em regiões do interior e do Norte e Nordeste. A “Demografia Médica no Brasil 2025” mostra, por exemplo, a desigualdade na distribuição de cirurgiões, anestesiologistas e especialistas entre capitais e cidades do interior, o que afeta diretamente o desempenho dessas instituições.
Além disso, a burocracia no repasse de verbas públicas e a complexidade dos contratos com o SUS geram insegurança jurídica e dificuldade de planejamento. Ainda que programas como o “Prosus”, Programa de Fortalecimento das Entidades Filantrópicas, e iniciativas estaduais de renegociação de dívidas tenham trazido algum alívio, as soluções têm sido frequentemente paliativas.
Hoje, as Santas Casas e os hospitais filantrópicos se reinventam para sobreviver. Muitos investem em parcerias público-privadas, modernização de gestão e adoção de tecnologias que aumentem a eficiência, como a digitalização de filas de cirurgias, adotada em colaboração com plataformas como a Fin-X. Essa estratégia, ao oferecer dados em tempo real e protocolos clínicos automatizados, reduz desperdícios e melhora o uso de recursos limitados.
Apesar de todas as adversidades, o legado dessas instituições segue vivo. São agentes essenciais da política de saúde brasileira, especialmente nos locais onde o Estado não chega de forma plena. A história das Santas Casas é a história da solidariedade institucionalizada no Brasil, uma tradição que tem sobrevivido ao tempo e à escassez, sustentada por um compromisso permanente com o cuidado à vida.