A interoperabilidade — ou seja, a capacidade de diferentes sistemas, instituições e profissionais de saúde trocarem informações de forma fluida, segura e útil — é um dos maiores desafios e, ao mesmo tempo, uma das maiores oportunidades da saúde brasileira.
O problema: um sistema fragmentado e opaco
A jornada de um paciente no Brasil pode envolver:
- Atenção primária na rede pública,
- Atendimento especializado em clínicas privadas,
- Cirurgia hospitalar por meio de plano de saúde,
- Exames realizados em laboratórios independentes,
- E acompanhamento pós-cirúrgico em domicílio.
Entretanto, esses elos não conversam entre si. Cada sistema possui sua própria lógica, seus próprios cadastros, códigos, padrões e processos.
Os dados do paciente não seguem o paciente. E a consequência é grave:
- Médicos tomam decisões com base em informações incompletas;
- Exames são repetidos desnecessariamente;
- Operadoras autorizam procedimentos sem compreender o contexto;
- Hospitais agendam cirurgias sem saber se os materiais foram liberados;
- Pacientes vivem uma jornada descoordenada, desgastante e, muitas vezes, insegura.
O contexto brasileiro: fragmentação, assimetrias e ausência de governança
Apesar da existência de padrões nacionais como o TISS (obrigatório entre prestadores e operadoras) e da ampla citação de HL7 e FHIR como padrões globais, o Brasil não consolidou uma governança interoperável no setor de saúde.
Os principais entraves incluem:
- Adoção desigual de padrões: o TISS é obrigatório, mas mal implementado; HL7/FHIR são usados de forma customizada e pouco compatível entre si.
- Códigos próprios de materiais, procedimentos e OPME: cada operadora, hospital e fornecedor fala uma “língua própria”.
- Falta de diretórios de referência (como no Open Finance) para autenticação e descoberta de APIs e participantes.
- Pouco incentivo à integração por parte dos atores dominantes: operadoras e hospitais ainda operam em silos que lhes garantem poder de negociação, mas limitam o ecossistema como um todo.
- A ausência de um plano nacional de interoperabilidade com metas, incentivos e fiscalização.
O que está em jogo: mais que eficiência, saúde baseada em dados
Interoperabilidade não é só sobre tecnologia. Ela impacta diretamente:
- Segurança do paciente, ao permitir decisões clínicas mais informadas;
- Eficiência operacional, ao eliminar retrabalho e reduzir custos desnecessários;
- Previsibilidade assistencial, especialmente na jornada cirúrgica;
- Gestão populacional e saúde baseada em valor, pois sem dados integrados, não há medição consistente de desfechos;
- Transparência regulatória, ao permitir melhor fiscalização, rastreabilidade e planejamento em saúde pública e suplementar.
O que precisa ser feito?
Para mudar esse cenário, o Brasil precisa:
- Reconhecer a interoperabilidade como uma infraestrutura estratégica nacional, e não como um subproduto tecnológico.
- Estabelecer uma arquitetura de referência pública, com padrões mínimos, APIs obrigatórias e consentimento estruturado (nos moldes do Open Finance).
- Criar incentivos reais para adesão, vinculados a repasses públicos, acreditações, metas regulatórias e performance.
- Investir em soluções que permitam avanços incrementais, mesmo sem padronização total — por exemplo, plataformas com arquitetura modular, suporte multipadrão (TISS, HL7, FHIR) e capacidade de adaptação local.
Avançar é possível — mesmo no cenário atual
A saúde não precisa esperar uma “padronização perfeita” para começar a interoperar.
Com uma arquitetura em camadas, com conectores configuráveis, uso inteligente de padrões existentes e respeito à realidade heterogênea do setor, é possível avançar.
A interoperabilidade na saúde brasileira é, hoje, um dilema entre o ideal técnico e o possível estratégico.
E cabe a nós — gestores, profissionais, reguladores e inovadores — escolher entre a inércia e o movimento.