Cirurgias no Brasil: Desigualdades, Filas e a Tecnologia como Solução

A trajetória das cirurgias no Brasil, especialmente no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), é marcada por significativos avanços e persistentes desafios. A criação do SUS em 1988 consagrou o direito universal e gratuito à saúde, tornando o acesso a cirurgias eletivas e de urgência uma política de Estado. Antes disso, os procedimentos cirúrgicos estavam concentrados em hospitais filantrópicos ou vinculados à Previdência Social, o que limitava drasticamente o alcance populacional. O SUS não apenas democratizou o acesso, como também organizou redes hierarquizadas de serviços hospitalares de média e alta complexidades que incluem os procedimentos cirúrgicos. Contudo, à medida que a população cresceu, envelheceu e passou a demandar mais cuidados complexos, o sistema enfrentou dificuldades de financiamento, infraestrutura e gestão. O subfinanciamento histórico do SUS, que opera com o equivalente a apenas 4% do PIB, enquanto no setor privado circulam quase 6% do PIB, e para atender menos de 25% da população, ajuda a explicar parte da sobrecarga e das longas filas por procedimentos cirúrgicos.

Segundo o estudo Demografia Médica no Brasil 2025 (Scheffer, 2025), as filas de cirurgias eletivas no SUS cresceram 26% entre 2022 e 2024. Filas compostas principalmente por procedimentos como colecistectomias (retirada da vesícula), herniorrafias (correção de hérnia) e apendicectomias (remoção do apêndice), que embora considerados de baixa complexidade, são essenciais para aliviar dores e evitar complicações graves. O mesmo estudo mostra que há uma enorme desigualdade na distribuição dos profissionais de cirurgia no país. Em 2024, havia uma razão média de 6,1 cirurgiões gerais e 7,1 anestesiologistas por 100.000 habitantes, mas esse índice chegava a ser três vezes maior em regiões ricas do que nas mais pobres. O impacto dessa distribuição é direto: locais com menos médicos realizam menos cirurgias e acumulam filas maiores. Adicionalmente, 75% dos cirurgiões entrevistados relataram dificuldades na gestão do tempo entre suas atividades nos setores público e privado, o que compromete a capacidade instalada do SUS de realizar mais cirurgias. Apenas 8% dos cirurgiões atuavam exclusivamente no sistema público, e a maioria exercia a chamada “dupla prática”, o que reflete a precarização dos vínculos e incentivos desfavoráveis à dedicação integral ao SUS.

A obra Setor Privado e Relações Público-Privadas da Saúde no Brasil: Em Busca do Seguro Perdido (IEPS, 2024) oferece um panorama do crescente protagonismo do setor privado na oferta de serviços cirúrgicos e na concentração dos equipamentos tecnológicos de alta complexidade. Enquanto o SUS permanece com um número relativamente estável de leitos e recursos, o setor privado, sobretudo a partir da abertura ao capital estrangeiro em 2015, expandiu rapidamente sua estrutura, com destaque para equipamentos de imagem, centros cirúrgicos modernos e verticalização de operadoras e prestadores. Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) compilados pelo estudo mostram que o Brasil lidera o ranking de equipamentos de tomografia e ressonância magnética per capita em áreas cobertas por planos privados, chegando a apresentar capacidade ociosa. Esse excesso de oferta contrasta com a escassez de recursos no SUS, indicando dificuldade na alocação sistêmica e pouca eficiência no uso do parque tecnológico nacional. O estudo também destaca a aparente ausência de governança integrada entre os setores. O uso cruzado de recursos, quando pacientes privados que recorrem ao SUS e usuários do SUS que buscam serviços privados do próprio bolso, evidencia que público e privado não são compartimentos estanques, mas partes de um mesmo sistema que atualmente parecem operar em competição e não em cooperação.

Diante desse cenário de baixa eficiência, subfinanciamento e desigualdade, a incorporação de tecnologias digitais aparece como uma das principais estratégias para reorganizar e otimizar a jornada cirúrgica. A Demografia Médica 2025 mostra que o uso de laparoscopia (cirurgia minimamente invasiva) está se tornando padrão no setor privado, mas ainda é minoritário no SUS. Em 2023, quase 89% das apendicectomias no SUS foram feitas por via aberta, contra apenas pouco mais de 11% por laparoscopia. Já na saúde suplementar, o cenário se inverte: 94% das colecistectomias foram feitas por via minimamente invasiva. Outro exemplo de modernização é apresentado pela startup Fin-X, que desenvolveu uma plataforma digital para gestão completa da fila cirúrgica. A solução permite integração em tempo real entre médicos, hospitais e gestores públicos, automatizando etapas como triagem, cotação, autorização, realização, auditoria e pagamento. Com base em protocolos clínicos padronizados e classificação de complexidade por DRG (Diagnosis Related Groups), o sistema visa garantir priorização justa, evitar duplicidades, reduzir fraudes e encurtar o tempo de espera entre a indicação e a realização da cirurgia. Esse tipo de inovação atende às principais demandas apontadas pelos próprios cirurgiões no inquérito nacional da FMUSP, em que 51% reivindicaram melhorias nos fluxos e na remuneração, e mais de 27% sugeriram o fortalecimento da atenção primária para mitigar as sobrecargas cirúrgicas secundária e terciária.

O futuro da cirurgia no Brasil dependerá da capacidade de articulação intersetorial e do uso inteligente das tecnologias disponíveis. Algumas estratégias já identificadas incluem a revisão dos contratos e incentivos no SUS, garantindo remuneração mais atrativa para cirurgias eletivas de alta demanda; a expansão da videolaparoscopia no SUS, que reduz tempo de internação e complicações pós-operatórias; a implantação nacional de sistemas digitais integrados, como os propostos por plataformas como a Fin-X, com rastreamento de cada etapa da fila; a regulação baseada em critérios de risco e complexidade e utilizando algoritmos para ordenar prioridades com base em evidência clínica; o fomento à formação de cirurgiões nas regiões menos assistidas, com subsídios e incentivos à residência médica e à fixação local; o fortalecimento da rede de hospitais filantrópicos, que hoje respondem por parcela relevante das cirurgias do SUS e operam em déficit. A análise dos dados trazidos por Demografia Médica no Brasil 2025 (Scheffer, 2025) e Setor Privado e Relações Público-Privadas da Saúde no Brasil (IEPS, 2024) revela que o principal desafio das cirurgias no país não é apenas de escassez de recursos, mas de dificuldade na gestão, entre outros, pela baixa integração entre as esferas pública e privada. As filas, longe de serem fenômenos naturais, são produto de um sistema que ainda não resolveu seus entraves logísticos, financeiros e operacionais. As tecnologias digitais, se aplicadas com inteligência e sem preconceito, podem transformar radicalmente a gestão da fila cirúrgica, de um mecanismo opaco e ineficiente para uma jornada transparente, rastreável e centrada no paciente. Mais do que inovação, trata-se de uma necessidade ética e constitucional.

Daniel Shiraishi
CEO na Fin-X

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